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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Os Hadzas da Tanzânia

Foto de Martin Schoeller
Eles não cultivam alimentos, não criam animais e desconhecem calendário e leis escritas. São caçadores-coletores que ainda vivem quase exatamente como há 10 mil anos. O que eles sabem que nós esquecemos?
Por Michael Finkel

"Estou com fome", diz Onwas, ao pé da fogueira, em meio à fumaça. Os homens ao lado concordam com murmúrios. É noite no coração da mata no leste da África.
Um canto, uma entoação ritmada, chega até nós vindo do acampamento das mulheres. Onwas fala de uma árvore que avistou em suas andanças. Os homens em volta da fogueira se aproximam. Está num lugar difícil, explica Onwas, no alto de um morro íngreme que se destaca na planície. E a árvore, diz ele abrindo os braços como se fossem galhos, está cheia de babuínos. Mais murmúrios. Fagulhas sobem para a imensidão estrelada do céu. Decidem. Todos se levantam e pegam seu arco de caça.

Onwas é velho, talvez tenha mais de 60 anos - ano não é a unidade de tempo que ele usa -, mas é esguio e forte como um típico hadza. Deve ter cerca de 1,5 metro de altura. Traz nos braços e no tronco os hieróglifos de toda uma vida na mata: cicatrizes de caçadas, cicatrizes de picadas de cobra, cicatrizes de flechas, facas, escorpiões e espinhos. Cicatrizes de quando caiu de um baobá. Cicatrizes de um ataque de leopardo. Metade de seus dentes ainda está na boca. Ele usa sandália feita de pneu velho e calção marrom esfarrapado. Leva à cintura uma faca de caça embainhada em um estojo de couro de dik-dik. Tira a camisa, como a maioria dos outros, porque deseja se camuflar na noite.

Onwas olha para mim e fala em hadzane. Para meus ouvidos, soa estranhamente bipolar: cadenciada e suave por umas frases, em seguida dissonante e percussiva com estalos de língua e crepitações glotais. É uma língua sem nenhum parentesco próximo de qualquer outra hoje viva - isolada, na terminologia dos linguistas.

Cheguei à terra dos hadzas no norte da Tanzânia com uma intérprete chamada Mariamu. Ela é sobrinha de Onwas. Frequentou a escola por 11 anos e é uma das pouquíssimas pessoas que falam inglês e hadzane. Ela interpreta as palavras de Onwas: eu gostaria de ir junto?